COMO VOCÊ SE SENTE NAS FESTAS DE FINAL DE ANO?

Em clima de pós-pandemia, evidentemente ainda se valendo de todos os cuidados, chegamos em mais um mês de comemorações natalinas e a passagem para o novo ano, e que normalmente são propícias para desencadearem uma carga substancial de emoções e sentimentos em todos nós. Mas afinal, como você se sente nestes momentos de final de ano?

Em tons eufóricos e em alguns casos até exagerados, as celebrações de dezembro se coadunam com os ideais de felicidade, prosperidade e paz. Para muitos, é um momento para deixar os problemas de lado e apegar-se à circunstâncias regadas à muita fartura, encontro com familiares e amigos, passeios, viagens, presentes e tudo mais o que a criatividade permitir.

Mas o fim de ano também poderá produzir um clima emocional muito distinto e propício das demais épocas do ano e despertar as mais paradoxais emoções e sentimentos, em certos casos negativamente, como acontece com pessoas que ficam deprimidas, desenvolvem crises de ansiedade ou desejam declinar da vida justificando-se do pesadelo das datas festivas.

Neste caso, o final de ano pode ser um termômetro para mensurar os contrastes sentimentais, tais como a alegria e a tristeza, a saudade e a nostalgia, a esperança e a desilusão, a expectativa e a frustração, a indiferença e a compaixão, a fé e o ceticismo, enfim, uma lista incomensurável.

"...experiências emocionais e afetivas são determinantes na qualidade de vida e nas relações interpessoais ..."

Considere-se os aspectos contextuais e subjetivos, ou seja, se tudo estiver bem conosco, celebramos jubilosamente sem maiores obstáculos, mas se o momento não é proprício ou algo vai mal, a tendência é refutarmos as razões para festejar e ceder lugar às queixas, ao isolamento e à solidão.

E o que é emoção e sentimento? Para o neurologista português Antonio Damásio, emoção está ligada aos instintos, sendo o que nos torna singulares entre as espécies. A palavra 'emoção' da raiz 'emovere' tem a ver com movimento, sendo algo essencial à vida, afinal, todos somos regidos pelas emoções.

O psicoterapeuta norte americano Paul Ekman, especialista no estudo de emoções, as define como um complexo conjunto de reações químicas, neurológicas e físicas que visam a sobrevivência do indivíduo, além de forte impacto na vida mental.Neste caso, as experiências emocionais e afetivas são importantes no âmbito da qualidade de vida e nas relações interpessoais, evidentemente podendo resultar em muitos benefícios para a vida mental, ou ao contrário, desencadear efeitos colaterais de proporções mais austeras.

Medo, raiva, alegria, tristeza, ódio, inveja, amor são algumas das emoções básicas. Operam em nível inconsciente, o que difere do sentimento, de dimensões mais conscientes. Se a emoção é automática, inconsciente, instintual, impulsiva, corporal, o sentimento é a percepção consciente destas respostas emocionais que se ligam ao mental, ou seja, ao pensamento e ao sensorial.

"Sempre haverá algo mais em nosso mundo mental para além da euforia festiva ..."

Sempre haverá algo mais em nosso mundo mental para além da euforia festiva. Mas como expressar isso com sinceridade diante destes momentos que sempre nos exigirá um sorriso no rosto e uma aparência de felicidade? Como bem escreveu a poetisa Adélia Prado, "... ao encontrar palavras para narrar minha angústia, já consigo respirar.

"Se ao nos regalarmos à comida e à bebida, quem sabe para se distrair um pouco de coisas que nos incomodaram o ano todo, no dia seguinte, absortos de uma amarga ressaca e de indigesto mal-estar, poderemos recorrer de receitas caseiras às soluções farmacêuticas para aliviar-se dos desagravos.

O mesmo não se pode dizer quando o assunto é digerir as coisas que ocupam lugar em nossa mente, o que requer um trabalho psíquico para poder pensar, transformar e ressignificar as experiências e sentimentos mais angustiantes e dolorosos. Isso é possível pela análise, ou seja, se o momento é de celebrar mas os pensamentos persistem incomodar, o divã pode ser o melhor remédio.

Que o novo ano venha repleto de fortes emoções, mas sem nos adoecermos delas. E como cantou Roberto Carlos, "...se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi...".

Boa festas!

OS MORTOS NAS MENTES DOS VIVOS

A homenagem em memória dos mortos, também conhecida como Dia de Finados, teve seu início no ocidente por iniciativa do cristianismo romano no segundo século, e fontes históricas afirmam que foi somente em meados do século XIII que a data foi oficialmente instituída nas pautas litúrgicas de Roma.

Mas este olhar para os mortos não se restringe apenas às confissões religiosas ocidentais. O tema remonta os primórdios das civilizações por meio de diversos povos que de alguma maneira exaltavam a morte através de suas culturas, crenças e ritos. Em países como o México, por exemplo, ela está profundamente enraizada nos costumes e tradições daquela nação centro-americana.

Mas afinal, o que é a morte? Para alguns talvez represente o fim de tudo, um ponto final. Para outros um meio para se obter a eternidade ou a oportunidde de novos recomeços. Vertentes religiosas e espiritualistas normalmente consideram as três principais perguntas existenciais da humanidade: de onde viemos, por que estamos aqui e para onde vamos depois desta vida, e neste ponto, a morte se torna um assunto central nos enigmas da humanidade.

E como a morte é pensada na mente dos vivos? Para Ernest Becker "ela é uma ideia que move a vida" aponta o escritor em seu premiado livro A Negação da Morte. A psicanalista Melanie Klein considera que o medo da morte é a causa primária da ansiedade desde o nascimento. Freud fez alguns desdobramentos acerca da melancolia (depressão) associando-a às experiências de luto, bemo como organizou modelos de teorias pulsionais nominando-as de vida e morte.

"... se da morte não se obtém muitas respostas, dela ao menos
se pode evocar uma pergunta: afinal, o que é a vida? "

A herança de aspectos culturais, religiosos, filosóficos, sociais, antropológicos e até científicos sustentam a complexidade acerca da da finitude do ser. De qualquer forma, o Dia de Finados é um momento apropriado para refletir a vida na perspectiva da morte. Aliás, se da morte não se obtém muitas respostas, dela ao menos se pode evocar uma pergunta: afinal, o que é a vida?

A médica Ana Cláudia Arantes, especialista em intervenções de luto e cuidados paliativos com pacientes em estado terminal em São Paulo, afirma que "a morte não é bonita, e que embora sua beleza seja o impar de uma tristeza, a vida sim que é bonita", como bem cantou Gonzaguinha, "eu sei que a vida devia ser bem melhor e será, mas isso não impede que eu repita, é bonita..."

O médico patologista e professor Paulo Saldiva considera que,"no fundo, o verdadeiro mistério não está na morte, mas está na vida", e que embora seja capaz de emitir um atestado de morte, jamais dará um atestado de vida dado a sua complexidade. Embora a vida seja às vezes um soco no estômago como escreveu Clarice Lispector, "viver é melhor que sonhar, a vida é uma coisa boa" como compôs Belchior.

"... é morrendo que se aplaca o insuportavel da vida, ou é vivendo
intensamente que se obtém um alento para o insuportável da morte?

Se tantos vivem pela antecipação da própria morte, outros viverão para sempre apesar de já terem morrido. Retomando Lispector, "cada dia é um dia roubado da morte, mas é esta morte que nos ajuda a suportar às vezes o insuportável", e neste caso nos indagamos: será que é morrendo que se aplaca o insuportavel da vida, ou é vivendo intensamente que se obtém um alento para o insuportável da morte?

Embora tão paradoxal possa parecer o viver e morrer que inspiram de poetas a pregadores, é na dor e na saudade pelos que já partiram que buscamos consolo, serenidade e silêncio, mas que nos sirva também como uma fagulha para manter acesa não somente a chama pela vida, mas a oportunidade para pensarmos e ressignificarmos nossa breve peregrinação neste mundo com mais humildade e virtude.

Faço minhas as palavras do saudoso psicanalista britânico Winnicott que certa vez disse: " quando eu morrer, eu quero estar bem vivo." Até porque, como bem cantou Raul Seixas, "a morte, surda, caminha ao meu lado, e eu não sei em que esquina um dia ela vai me beijar ..."

"Mas pra aprender a morrer, foi necessário viver, e eu vivi ..." (Baden Powell)

A 'IMPOSSÍVEL' PROFISSÃO DO EDUCADOR

Dia 15 de Outubro comemora-se o Dia do Professor. A data nos remete aos tempos do Império quando D. Pedro I, em homenagem à professora Santa Tereza de Ávila, decretou o ensino fundamental no Brasil (na época as Escolas das Primeiras Letras), estimulando o surgimento de escolas nas províncias mais distantes, acompanhado de uma série de normativas e currículos. Aos meninos, a leitura, escrita, cálculos e álgebra. Às meninas, restou-lhes o ensino da economia e das prendas domésticas.

Esta data se tornou feriado ainda na década de 40, mas foi apenas no ano de 1963 que um Decreto o regulamentou: " - "Para comemorar condignamente o Dia do Professor, os estabelecimentos de ensino farão promover solenidades, em que se enalteça a função do mestre na sociedade moderna, fazendo participar os alunos e as famílias", enaltece o Ato Federal.

Da Grécia Antiga com a pedagogia Aristotélica até as Escolas Novas dos século XX, a educação foi assumindo histórica e gradativamente seu protagonismo no centro das discussões políticas e sociais no mundo, e hoje em tempos de neomodernidade e avanços tecnológicos, segue rompendo velhos paradigmas, vencendo barreiras e passando por significativas transformações.

Mas uma figura essencial não deve jamais ser preterida no âmbito destas discussões: o professor. O 'pedagogo' numa tradução literal que significa 'aquele que guia', surgiu há mais de três milênios antes de Cristo, e era um escravo de famílias ricas designado para acompanhar as crianças até o mestre, embora era com o escravo que elas mais interagiam, conviviam e se preparavam. Há indícios de que pessoas específicas seriam selecionadas para ensinar certas habilidades desde os tempos do Antigo Egito, tradição que depois também se firma nas tradições religiosas do judaísmo.

A psicanalista britânica Melanie Klein (1882-1960), em seu artigo "O papel da escola no desenvolvimento libidinal da criança", publicado na coletânea Amor, Culpa e Reparação e Outros Trabalhos, considera que " ... na vida da criança, a escola significa o encontro com uma nova realidade, que muitas vezes parece muito dura...", ressalta, mas aponta para a figura do professor como substituição da figura maternal que contribui positivamente durante este processo. E quem não se lembra da primeira professora no início de nossa vida escolar e o quanto ela foi importante em nosso primeiros passos do aprender?

O pai da psicanálise Sigmund Freud (1856-1939), em seu artigo "Análise Finita e Infinita" (1937), faz a seguinte consideração: " - É quase como se o analisar fosse aquela terceira das profissões "impossíveis" ... as outras duas, conhecidas há muito mais tempo, são o educar e o governar. " De fato, os mestres estão cada vez mais cientes desta difícil realidade, e embora muitas vezes desmotivados e desvalorizados, vem se tornando exímios mestres do impossível, realizando seus milagres.

Mas quero chamar a atenção em especial para um tema que já há alguns anos exponho em uma de minhas palestras ministradas nas escolas, "Professores à beira de um estado dos nervos" que chama a atenção sobre a importância do cuidado emocional por parte destes que se dedicam por vocação à arte o ofício do ensino. Os números indicam que mais de 70% (setenta por cento) dos profissionais de educação que deixam de trabalhar temporariamente ou em caráter definitivo em sala de aula se deram por condições psicológicas ou psiquiátricas, principalmente pela depressão e transtornos de ansiedade, seguidos do estresse, insegurança, violência e outras alterações em níveis mais severos de saúde. Como afirma Mário Cortella " ...quando o modelo de vida que vivemos nos leva a um esgotamento, é fundamental questionar se vale a pena continuar insistindo no mesmo caminho... ", reitera o filósofo.

Em meio a tantos desafios, o professor embora movido pela abnegada entrega à profissão, deve sempre se lembrar de que são as emoções que movem a sua vida acima de tudo, emoção que vem do latim movere ou movimento. O pintor holandês Vincent van Gogh (1853-1890) afirmara certa vez que "... as emoções são os grandes capitães da nossa vida, obedecemos-lhes sem nos apercebermos. ", enfatiza. Como um jogador de futebol que coloca sua emoção no 'bico de sua chuteira', assim o professor, que deposita sua emoção diariamente diante de uma lousa no ambiente escolar ou acadêmico.

Todavia, os desgastes são inevitáveis neste sentido, e mesmo corajosos, bravos e persistentes, nossos mestes também podem sucumbir ao sofrimento de suas emoções e sentimentos. A psicanalista portuguesa Emanuela Fleming em seu livro Dor Sem Nome considera que " ...a dor mental apresenta-se por vezes como uma potência sem nome, dominadora e cruel, impondo uma lógica tirânica..." Como escreve São Paulo Apóstolo em sua epístola aos romanos, "o que ensina, esmere-se no fazê-lo" e completa em outra epístola bíblica, "cuide de ti mesmo, e do teu ensino; persevera nisso".

Aos mestres, o desafio de seguirem perseverando na arte do impossível, não se esquecendo do cuidado de si, da autoestima, da valorização da classe, e claro, exercendo sempre o pleno direito de reivindicar e exigir o devido respeito que merecem de toda a sociedade. Como canta a sambista e política Leci Brandão: "Professores, protetores do meu país, eu queria, como eu gostaria, de um discurso bem mais feliz, porque tudo é educação, e matéria de todo o tempo, ensinem a quem pensa que sabe de tudo, a entregar o conhecimento, batam palmas para ele, batam palmas pra ele, que ele merece!"

O QUE É UMA CRIANÇA?

Se levarmos em consideração as fases de desenvolvimento de um ser humano, podemos definir uma criança como uma pessoa de pouca idade, que compreende a fase de recém-nascido até a puberdade com suas transformações físicas, biológicas e psicológicas. No Brasil, é considerado criança até os 12 anos, embora algumas convenções internacionais definem o infante como todo menor de 18 anos.

Em 12 de outubro comemora-se o Dia das Crianças, celebrada no Brasil desde meados da década de 20 do século passado, e que mais tarde ganhou relevância graças a uma campanha de marketing realizada por uma famosa fábrica de brinquedos, que para alavancar a venda de seus produtos, promoveu uma semana da criança que veio a ser incorporada no calendário de comemorações nacionais.

A psicanálise é tanto um método de exploração do inconsciente (aspectos latentes de nosso ser), que quando bem-sucedida restaura a nossa personalidade e nos aproxima da pessoa que fomos quando nosso desenvolvimento ficou comprometido, como afirma o psicanalista britânico W.Bion (1897-1979), mas é também um amplo campo de teorias para pensar o mundo, a cultura, as relações humanas e as inquietações da alma. E justamente por estas dimensões teóricas que o tema do infantil ganhou relevância como modelo das mais variadas construções psicanalíticas.

Dentre seus principais teóricos, Sigmund Freud (1856-1939) estudando o adulto, descobriu a criança de todos nós, da mesma maneira, Melanie Klein (1882-1960), que ao se dedicar em sua clínica infantil, foi observando a criança que descobriu o bebê dentro delas. E Donald Winnicott (1896-1971), graças a sua experiência de pediatra, dedicou-se com afinco no universo da criança, deixando valiosas contribuições acerca de atenções essenciais no processo do desenvolvimento emocional infantil.

Mas afinal, o que é uma criança? Embora cada consideração abaixo explicitada merece uma discussão bem mais pormenorizada, técnica e profunda, é sobre este espectro de penumbras associativas percebidas pelos saberes da metapsicologia que gostaríamos de destacar pelo menos três considerações dentre tantas outras possíveis, e que podem nos ajudar a ampliar nossas formas de compreensão sobre este maravilhoso, porém complexo, mundo infantil.

Em primeiro lugar, precisamos ter em mente de que crianças não funcionam no mesmo padrão dos adultos. Os aspectos físicos, biológicos e psicológicos definem singularmente suas necessidades, convívio e formas de tratamento. Mas o que lamentavelmente se observa na sociedade é o drama de muitas crianças adultilizadas ou precocemente estimuladas a isso. Devemos tratar crianças como crianças, não lhe imputando a elas um peso de algo que ainda não são, mas dando-lhes pavimento adequado para se tornarem no futuro, adultos maduros e socialmente responsáveis.

Em segundo lugar, as crianças são vidas que necessitam do suporte adequado dos adultos para sobreviver e se desenvolver. Falhas neste processo poderão incorrer em sérios transtornos emocionais, distúrbios de personalidade, problemas de aprendizagem e até mesmo delinquência. A criança precisa de condições básicas para crescer saudável, bem como do acolhimento afetivo de seus cuidadores, algo crucial para se tornarem mais seguras e aptas para enfrentarem os desafios da vida.

E por fim, crianças são seres que precisam brincar e adoram fazer isso com os adultos. Quando nos lembramos do Dia das Crianças, logo pensamos em presentes, principalmente brinquedos, objetos do desejo infantil. Dar presentes tem sua relevância e significado, e mais do que isso, crianças precisam ser estimuladas a brincar, não apenas sozinhas ou com outras crianças, mas a interação com os adultos também é importante. Criança que não brinca, não se desenvolve. E a interação com os adultos também imprime marcas profundas no processo de organização psíquica delas.

A data comemorativa já passou, mas as crianças seguem trazendo alegria e esperança aos nossos lares e o mundo, sem nos esquecermos de uma outra criança muito especial, a criança que já fomos um dia e que se perpetuou dentro de cada um de nós em nossas memórias e reminiscências, formando os fragmentos infantis que diariamente alimentam os sonhos como expressão mais fiel de nossos desejos.

E como escreveu o saudoso poeta Paulo Leminski: " - Nesta vida, pode-se aprender três coisas de uma criança: estar sempre alegre, nunca ficar inativo e chorar com força por tudo o que se quer. "

E QUANDO NÃO HOUVER SAÍDA?

Setembro Amarelo e a prevenção ao suicídio

No ano de 1994 um triste episódio marcou uma cidade do interior dos Estados Unidos chamada Westminster-CO. Ali vivia um jovem chamado Mike Emme que tinha um Ford Mustang de cor amarela resultado de sua dedicação na restauração do veículo e que até lhe rendeu um apelido. Apaixonado por carros, era visto por todos com um jovem alegre, de bem com a vida, bom humor, ótimas relações, características típicas de pessoas que desfrutam do pleno de sua juventude aos 17 anos de idade.

Mas no dia 08 de setembro daquele ano, entre onze horas e meia-noite, algo chocou profundamente a população local. Este promissor rapaz foi encontrado dentro de seu famoso carro, morto com um tiro. A polícia achou junto um bilhete pedindo desculpas aos pais e dizendo o quanto ele os amava. Mike havia tirado a própria vida. Ninguém conseguia acreditar naquilo e todos perguntavam como isso era possível se ninguém notava nada de direfente nele que poderia justificar brutal ação.

Em seu velório houve uma mobilização local que se logo se alastraria por todo o país e se transformaria numa campanha de dimensões internacionais. Foram distribuídos fitas amarelas com cartões (devido a cor do carro e o apelido que o jovem tinha - o Mike do Mustang Amarelo), com o seguinte dizer: "Se você precisar, peça ajuda!". Nascia ali o Setembro Amarelo.

Realizada no Brasil desde 2014 por iniciativa da Associação Brasileira de Psiquiatria em parceria com o Conselho Federal de Medicina, a campanha remete ao 10 de setembro, oficialmente Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio
Embora se intensifique no mês da primavera, esta mobilização acontece durante todo o ano com objetivo de conscientizar sobre a prevenção ao suicídio, buscando alertar a população e tentar reverter esta quadro por meio de ações que envolve entidades públicas e privadas, órgãos de saúde, escolas, universidades, igrejas, empresas, etc, e despertar um olhar para a vida e a importância do cuidado com o próximo em seu adoecimento mental, independente da classe social e faixa etária.

Dados da Organização Mundial de Saúde apontam que a cada quarenta segundos uma pessoa tira a própria vida, e a cada três segundos houve uma tentativa não consumada. Mais de um milhão de suicídios acontecem por ano em todo o planeta. O suicídio é uma das principais causas de mortalidade, sendo a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, por exemplo. Em território nacional são registrados mais de doze mil suicídios e os números só têm aumentado nos últimos anos.

Cercado de mistérios, tabus e por delicadas questões éticas, culturais, morais e religiosas, o suicídio é considerado um grave problema de saúde pública e são diversos os fatores que podem influenciar uma pessoa atentar contra a própria vida, sendo que as principais causas são a depressão, transtornos e doenças mentais como a esquizofrenia, o uso de substâncias psicoativas, além do sentimento de absoluta impotência diante das inúmeras pressões, perdas e frustrações da vida adulta.

O bullying também vem se tornando um fator preemente entre crianças e adolescentes. O seriado Os 13 Porquês inspirado no livro de Jay Asher e disponível na plataforma Netflix é uma boa referência para o debate e reflexão, e as influências das mídias digitais como a Boneca Momo, a Baleia Azul e os jogos violentos como o GTA também servem como sinais de alerta e atenção das famílias.

A OMS ainda adverte que mais de 90% dos casos poderiam ser prevenidos com medidas simples como uma conversa, informação, suporte familiar, além da ajuda de especialistas para enfrentar e superar o problema, haja vista que na maioria dos casos quem se suicida não quer desistir de viver, mas se livrar da dor pela qual não consegue encontrar uma saída sozinho. Sabe-se que pelo menos dois terços dos atos cometidos foram sinalizados pela pessoa semanas antes a parentes e amigos próximos acerca da intenção de fazê-lo, o que desafia a sociedade em ações ainda mais vigilantes e eficazes.

Também é válido esclarecer que existem alguns mitos que precisam ser desfeitos em torno do comportamento suicida, tais como: que a pessoa não avisa, que isso não pode ser prevenido, que a pessoa só quer chamar atenção, que quem tenta uma vez não tenta novamente ou que falar abertamente sobre este assunto irá estimular a realização, o que de fato não procede.

A psicanálise se pauta por uma série de modelos teóricos que ajudam na construção de consistentes reflexões sobre este tema a partir de conceitos cunhados na metapsicologia, entre estes, o luto, estágios melancólicos, narcísicos e maníacos, a desintegração do eu, as estruturas psíquicas, as fantasias inconscientes, as ansiedades, os mecanismos de defesas, as funções de pensamento, etc.

Mas é pela exploração de dimensões inconscientes experienciadas numa análise que existe a possibilidade de pensar as relações com os invevitáveis estágios depressivos e ansiógenos, ressigificar as emoções, abrir-se para novos vértices de compreensão da vida e da morte, por exemplo, da responsabilização das escolhas, decisões e do próprio sofrimento, e de seguir crescendo mentalmente, superando as contradições da vida e encarando-a com mais perspectiva e propósito.

Além de profissionais especializados, existe o CVV (Centro de Valorização da Vida) que pode ser acessado através do telefone 188 ou pelo site cvv.org.br onde dispõe outras opções de acesso. O site podefalar.org.br oferece ajuda para jovens e adolescentes entre 12 a 24 anos, e também as políticas públicas de atenção à saúde mental como os serviços ofertados pelos Caps (Centro de Atenção Psicossocial). No site setembroamarelo.com é possível obter mais informações e encontrar orientações importantes sobre como proceder com pessoas de tendências ou sinais suicididas.

E você, tem planos para o futuro? Sente que sua vida ainda vale a pena ser vivida ou está difícil demais? O importante é que em qualquer sinal de alerta, procure ajuda. Como canta a banda Titãs: "Quando não houver saída, quando não houver mais solução, ainda há de haver saída, nenhuma ideia vale uma vida... é caminhando que se faz o caminho... enquanto houver sol, ainda haverá...".

QUAL A IMPORTÃNCIA DE UM PAI?

A essencialidade da figura paterna no desenvolvimento da criança.

"Não me cabe conceber nenhuma necessidade tão importante durante a infância de uma pessoa
que a necessidade de sentir-se protegido por um pai." (Sigmund Freud)

A nossa sociedade vem passando por constantes transformações e modificando as configurações das famílias através de novos modelos, mas a figura do pai nunca deixará de ser essencial, pois o seu papel é fundamental e complementar ao lado da mãe no percurso das dinâmicas familiares.

Um aspecto preocupante na educação dos filhos na atualidade é a ausência ou a inexistência do pai, ou mesmo de uma figura familiar que o substitua a contento, e que participe ativamente da vida dessa criança por meio de um vínculo satisfatório com ela no processo de crescimento.

Estatísticas apontam que mais de 70% de jovens e adolescentes em situação às margens da lei, por exemplo, cresceram sem a presença de um pai ou este não cumpriu adequadamente o seu papel. A repetência escolar é duas vezes maior entre crianças que crescem em lares sem uma presença paterna, e tem onze vezes mais chances de manifestarem comportamentos violentos na escola.

Crianças com um pai presente ou alguém que exerça este papel com efetividade, tem maior probabilidade de se sentirem mais seguras nos estudos, na escolha de uma profissão, na tomada de decisões importantes na vida, do contrário, ela poderá desenvolver conflitos de natureza emocional como personalidade antissocial, distúrbios de comportamento, insegurança, entre outros.

Pautado em algumas premissas teóricas da psicanálise, pensamos em pelo menos três considerações acerca da essencialidade paterna na formação do indivíduo a partir de suas fases iniciais de desenvolvimento e determinantes na constituição do ser.

Em primeiro lugar, o pai pode dar segurança à mãe durante sua maternidade, proporcionando a ela condições de se sentir mais protegida com seu bebê, haja vista que muito além de um suporte material, o amparo afetivo é uma forma de acolhimento diante das implicâncias que a maternidade acarreta.

Para a psicanalista Melanie Klein (1882-1960), "...o pai desempenha um papel crucial na vida da criança, principalmente se o homem está em harmonia com a sua esposa... muito do que se disse a respeito da relação da mãe com os filhos em diversos estágios de desenvolvimento, também se aplica ao pai... ele desempenha um papel diferente daquele da mãe, mas suas atitudes se complementam...", afirmou.

Uma segunda consideração, é que nesta conexão da criança com o seu pai, ela é estimulada a interagir ao seu redor e para além de seu vínculo exclusivo com a mãe. A criança necessita deste outro para começar a compreender a vida social. Na medida que ela vai notando a existência e presença deste pai, entenderá que o mundo não gira apenas em torno dela e que a mãe não é sua propriedade, cuja relação simbiótica normalmente traz consequências muito nocivas. Reconhecer esta unidade parental é importante para a estabilidade psicológica da criança e seu convívio com outras pessoas.

E por fim, o pai exerce substancial influência tanto na formação da identidade como da autoestima da criança. Se for ausente ou inexistente, outros modelos podem vir a ocupar esse vazio, com uma grande probabilidade de não serem modelos propriamente exemplares, como acontece no contexto da marginalidade e da delinquência, haja vista que a falta do pai pode desenvolver entre outras coisas, baixa autoestima, despersonalização, intolerância à frustração e sérios conflitos existenciais. Como disse certa vez o filósofo Nietzsche: "...se não se tem um bom pai, é preciso arranjar um".

A maior de todas todas as heranças que um pai pode deixar para os seus filhos é sua prova de amor, sua presença, seu suporte e seu exemplo. E como cantou Milton Nascimento, "...quero a utopia, quero tudo e mais, quero a felicidade nos olhos de um pai..."

Um Jubiloso Dia dos Pais!

POR QUE AS PESSOAS SE ATRAEM?

O Dia dos Namorados é uma data celebrada em diversos países, e algumas fontes atestam que o evento advém de uma festividade romana que homenageava Juno, rainha dos deuses, esposa de Júpiter e deusa do matrimônio. Em alguns lugares é comemorada no dia 14 de fevereiro relacionada a São Valentim e no Brasil o dia 12 de junho foi escolhido devido a Santo Antonio, considerado pela tradição católico-romana como o patrono dos casamentos, o popular santo-casamenteiro.

Estamos falando de um momento do ano quando pares apaixonados se dedicam às trocas de presentes e tudo quanto a criatividade permitir, é quando as juras de amor são reafirmadas mediante um clima de romantismo, cujas mentes e corações transbordam de magia, beleza e encantamento.

E por que as pessoas se atraem dessa maneira? Este é um tema cercado de mistérios, fantasias e complexidades da natureza humana com profundas e rudimentares raízes culturais, sociais, étnicas, antropológicas, religiosas, filosóficas, biológicas e psíquicas, e mesmo se tratando de um tema tão vasto, insistimos em pensar e falar sobre ele porque é uma das emoções básicas que nos move e faz viver.

A chamada química da paixão envolve uma quantidade de estímulos capazes de produzir sensações de bem-estar e felicidade através da liberação de substâncias como dopaminas e feromônios que torna tudo mais interessante, fazendo emergir sentimentos, emoções, sonhos, riscos, perigos e sedução.

"Somente quando formos capazes de reconhecer e aceitar o outro de maneira integral, total, é que estaremos dando um importante e genuíno passo na construção de um verdadeiro amor."

Sigmund Freud elaborou teorias ancoradas em modelos da sexualidade. Temas como libido, desejo e relação formam um entrelaçamento de conceitos que conferiram à psicanálise, segundo Freud, na 'essencialmente cura pelo amor.' E quando o assunto é amar, as pulsões avançam em dois movimentos. Primeiro aquele amor por si, o amor narcísico e posteriormente, se nada der errado, um amor que se move para o outro, o amor objetal. Ele afirma que amamos a partir do que somos, fomos, gostaríamos de ser ou de ter sido, ou seja, em tese, o amar carrega traços predominantemente egoístas.

Para Melanie Klein, umas das mais importantes psicanalistas depois de Freud, as primeiras experiências emocionais se desenvolvem de forma fragmentada, parcial, e na medida que percepções da realidade tomam forma, passamos a nos relacionar de maneira mais total, integral. E o que isso pode significar? Que paixão e amor nunca serão a mesma coisa. Toda paixão é de certa forma multifacetada, incompleta. Não se ama enquanto um todo não se estabelece. Apaixona-se por alguém mediante a atração e encantamento por aspectos específicos daquela pessoa por quem nos fixamos.

Somente quando formos capazes de reconhecer e aceitar o outro de maneira integral, total, é que estaremos dando um importante e genuíno passo na construção de um verdadeiro amor. Desta feita, sendo a paixão parcial, cindida, projetiva, às vezes até insana e, portanto, mais propensa a cessar e falhar (que o diga os grandes e trágicos romances da literatura), o amor implica numa forma de relação mais integral, duradoura, de aceitação, reconhecimento, plenitude e maturidade.

"Amar é dar ao outro o que não se tem para alguém que não o quer.'

Será que as relações vêm se tornando cada vez mais superficiais, líquidas e com prazo de validade reduzido? Exigimos do outro somente aquilo que nos interessa, nos apaixonamos não por alguém, mas apenas por uma parte desse alguém. Se realmente são os opostos que se atraem, talvez seja para se distraírem com suas paixões. O amor une semelhantes que, embora incapazes de notar isso, avultam as pequenas diferenças para seguirem persistindo na arte de viverem unidos.

Amar demanda tempo, amadurecimento emocional e capacidade de suportar as frustrações de uma relação que longe de ser perfeita, implica na aceitação não apenas do que é bom ou ideal no outro, mas também suas contradições, para que assim sejamos capazes de 'dar ao outro o que não se tem para alguém que não o quer' como certa vez afirmou o psicanalista Jaques Lacan.

Para Freud, melhor mesmo é que o tema do amor fosse exclusividade dos poetas. E se for da parte para o todo que relações se engatilham, então que a paixão (cuja etimologia phatos remete a dor, sofrimento) nos conduza até o amor duradouro e feliz, e se vier a cessar antes disso, ao menos não nos furte a capacidade de seguir a vida sem esmorecer, mesmo que isso contrarie os boêmios.

E como escreveu Fernando Pessoa: "Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?" Se por paixão ou amor, se por partes ou pelo todo, se na loucura ou na lucidez, na razão ou na estupidez, a todos os amantes e apaixonados um jubiloso dia dos enamorados.

MÃE


Em 9 de maio de 1905 na cidade de Webster (Estados Unidos), uma professora chamada Ana Jarvis perdeu sua mãe. Dois anos depois os moradores decidiram promover uma homenagem para a mãe desta professora por tudo o que ela dedicara à comunidade. No ano seguinte ainda no segundo domingo de maio, realizou-se pela primeira vez uma celebração pública com o mesmo objetivo. 
E foi nessa ocasião que Ana sugeriu que a homenagem se estendesse a todas as mães falecidas, ideia que foi logo aceita. E a partir desta inspiração de Ana que nasceu o Dia das Mães, que passaria a ser comemorado todo ano. Esta iniciativa chegou ao Brasil através pela ACM - Associação Cristã de Moços, e a data foi instituída pelo então presidente na época Getúlio Vargas.

Mas afinal, qual a importância da figura materna, principalmente nos primeiros meses de vida de uma criança? Este bebê ao nascer ainda é um ser muito frágil, desprotegido e, portanto, irá precisar contar com total apoio para sua sobrevivência, como cuidados físicos, alimentação, asseio, aquecimento, e principalmente afeto e ternura de todos ao seu redor, mas principalmente de sua mãe.E a pessoa responsável por tudo isso é a figura materna. Teorias psicanalíticas apontam que da gestação às primeiras semanas após o parto, desperta-se nessa mãe uma grande sensibilidade psíquica em relação ao seu bebê, um estágio de comunicação inconsciente entre eles. É por isso que as primeiras relações do par mãe e bebê são intensas e irão se constituir como base de seu desenvolvimento e constituição psíquica.

O pediatra e psicanalista britânico Donald Winnicott (1896-1971) afirmara que, "o primeiro espelho da criatura humana é o rosto da mãe: a sua expressão, seu olhar, sua voz. É como se o bebê pensasse: olho e sou visto, logo, existo." Portanto, mãe-bebê é uma parceria imprescindível para a interação social desta criança com o mundo.

... dentre as funções básicas, sustentação, manejo e adaptação ...

Havendo falhas neste processo, poderá ocasionar no surgimento de patologias psíquicas, pois da mãe depende a provisão de condições que ajudem a conter na criança sentimentos conflitantes e rudimentares, a fim de conduzí-la na transição de sua autonomia, confiança e criatividade. E assim o bebê vai adquirindo a noção de corpo e de adaptação à sua realidade externa.São pelo menos três as funções básicas. A primeira é a de sustentação, um conjunto de ações desta mãe para apoiar essa criança, tais como amamentação, cuidados com a higiene, temperatura. O segundo é o manejo, ou seja, como a mãe lida com seu bebê no dia-a-dia, a forma como segura, toca e ela olha para ele, são elementares. E por fim, a adaptação, pois da ajuda da mãe depende o gradativo processo de independência, autonomia e segurança da criança.

Toda mãe também precisa estar emocionalmente preparada, não apenas para poder suportar os obstáculos, inevitáveis da própria maternidade, mas também para acolher os primeiros sentimentos que predominam nas fases iniciais do infante. Neste caso, a mãe é como espelho emocional do filho e portanto também necessita do suporte do/a parceiro/a, da família e se necessário, de apoio especializado para conseguir lidar e conter suas próprias demandas emocionais.

Os meses iniciais de todo bebê são fundamentais. E qualquer sinal de fracasso poderá acarretar distúrbios, tendências antissociais, agressividade e delinquência. É por isso que situações de privação e desamparo no bebê podem ser drásticos por toda vida. A figura maternal que reúna condições suficientemente boas poderá ser capaz de sentir, de perceber e de acolher todas as necessidades desse bebê, evitando que ela cresça relativamente frágil, vulnerável, emocional e socialmente instável.Todas as mamães enfrentam nesta vocação um grande desafio. 

Uma experiência que envolve tantos mistérios, medos, incertezas e transformações, mas também de gratidão por se tratar de um dos momentos mais sublimes da natureza humana. Viva a maternidade. "Ele, pequenino, precisa de ti. Não o desligues da tua força maternal." (Cora Coralina)

IMAGINA, ISSO JAMAIS IRÁ ACONTECER COMIGO!

Tempos realmente difíceis estes que estamos vivendo. Diariamente somos dominados por sentimentos ambivalentes entre a esperança pela chegada de dias melhores principalmente em relação às medidas de combate à pandemia que se arrasta há um ano, e da tensão vivida frente aos índices alarmantes do aumento diário de pessoas contagiadas e vítimas fatais do Covid-19.

Mesmo com um forte apelo existente para que a população abrace as medidas preventivas essenciais como distanciamento social, uso de máscara, lavagem e álcool das mãos e superfícies, além das orientações restritivas para que se sejam evitadas aglomerações, a impressão que nos causa é que ainda estamos caminhando exata e desordenadamente no sentido contrário de tudo disso.

O que se vê em todas as regiões do país são pessoas, que independente de classe social, violam regras e desacatam autoridades através de organizações de festas, eventos religiosos, aglomerações de lazer, enfim, ajuntam-se justificadas por todos os tipos de contextos e pretextos, sempre na maioria das vezes displicentes e às escondidas, e com raras exceções de intervenção policial ou do poder público.

Isso vem despertando na sociedade muita revolta, repulsa e indignação principalmente pela grande maioria da população, e que embora vem seguindo firmemente com todas as orientações, normalmente se tornam alvo fácil de contaminações disseminadas por estes aventureiros insanos e inconsequentes.

Sigmund Freud escreveu que "duas coisas fazem o ser humano sofrer, neste caso, a doença e a estupidez". E agora estamos sendo exatamente afligidos por ambas ao mesmo tempo.

Mas afinal, o que leva uma pessoa agir dessa maneira? Por que ela insiste em querer violar regras se achando acima do bem e o do mau, e quando indagada, cerca-se de justificativas mais infundadas e absurdas. As razões são diversas, mas ressalto alguns apontamentos para nossa reflexão.

Albert Einstein certa vez disse que "duas coisas são infinitas, a saber, o universo e a estupidez humana, em relação ao universo, não tenho certeza absoluta". De fato, a ignorância não somente cega, mas contagia outros e se torna uma grande muralha que separa o mundo. Na mesma direção Sigmund Freud também escreveu que "duas coisas fazem o ser humano sofrer, neste caso, a doença e a estupidez". E agora estamos sendo exatamente afligidos por ambas ao mesmo tempo.

Mas isto nos abre um vértice para pensar sobre a natureza psíquica e suas psicopatologias. Freud vai nos dizer que a nossa personalidade se alicerça sobre um modelo ilustrativo de tripé que ele denominou de neurose, psicose e perversão, e que embora a maioria se fixe na neurose, todavia oscila-se entre elas, ou seja, todos nós em algum momento nutrimos sentimentos e agimos por contornos psicóticos ou perversos, com exceção daqueles sujeitos mentalmente adoecidos.

Também vai falar que o nosso Eu se organiza de formas defensivas diante de ideias e sentimentos percebidos como conflituosos. E o que podemos dizer a respeito? Que desviar-se da realidade em demasia e agir de forma alheia a tudo o que se passa ao redor de si sem se dar conta do possíveis riscos e consequências simplesmente a serviço do bel prazer e da satisfação a todo custo apontam para um ser absolutamente regredido a um mundo mental delirante e alucinatório.

"... cada um age conforme a natureza que possui..."

Indivíduos plenos de altivez como seres divinos e poderosos, na ilusão de se sentirem imunes das mazelas e fragilidades da vida humana, denotam explicitamente características patológicas de perturbações mentais extremamente rudimentares e de absoluta defesa psicótica onipotente. Falecido recentemente, o psicanalista Contardo Calligaris (1948 - 2021) havia afirmado que "a patologia, nesta pandemia, não está no suposto pânico, mas na negação do que está acontecendo."

Certa vez um homem caminhava pelo bosque com um amigo, e ao avistar um escorpião se afogando no lago, o retirou da água. Imediatamente o animal lhe desprendeu um ferrão. Aquele homem indagado pelo amigo pelo fato de ter salvado àquele que depois o machucou respondeu: - agi com minha natureza, o escorpião com a dele. Neste caso, cada um age conforme a natureza que possui.

Não bastam apenas empreender medidas cíveis de repressão e punição (embora necessárias), porque a natureza de um ser psiquicamente comprometido o fará agir novamente por tantas outras vezes independente do que lhe for imposto como sanção. Neste caso, o que resta é uma intervenção psiquiátrica e anos a fio de análise. O que passar disso, só nos cabe acreditar em milagre.

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O QUE SABE SOBRE VOCÊ? 

O que é e para que serve a psicanálise.

O interesse pelo conhecimento da vida mental não é nada recente. Desde a medicina de Hipócrates na Grécia clássica do século IV a.C com seu tratado sobre as Teorias Humorais, importantes descobertas vem sendo obtidas através dos estudos voltados para a compreensão da mente humana, passando por Philippe Pinel - o pai da psiquiatria - e seu discípulo Esquirol, que no século XVIII desvendaram uma gama de patologias mentais, até os avanços tecnológicos e de estudos neurocientíficos da atualidade.

Mas um divisor de águas realmente ocorreu em meados do século XIX quando um médico neurologista vienense chamado Sigmund Freud se dedicou aos estudos de fenômenos histéricos. Surgia a revolucionária metapsicologia para a 'terapia das neuroses' chamada de Psicanálise, avultando-se posteriormente com o advento da escola inglesa de Melanie Klein, Bion, entre outros.

Não somos apenas o que pensamos ser: somos mais! Somos também o que lembramos e aquilo de que nos esquecemos; somos as palavras que trocamos, os enganos que cometemos, os impulsos a que cedemos 'sem querer'... o que sabe sobre você? (Sigmund Freud)

A psicanálise é tanto um complexo e extenso corpo teórico de modelos que versam sobre o funcionamento da vida mental, bem como um conjunto de instrumentos técnicos de exploração do inconsciente (o desconhecido metafísico de nós mesmos) com base na experiência emocional da sessão analítica, dispensando-se de causalidades, factualidades, ontologias, diagnósticos ou prognósticos, comuns em outros formatos como a psicologia e a psiquiatria por exemplo, o que torna o pensamento psicanalítico algo bastante singular e epistemologicamente distinto de outras psicoterapias.

Fazer análise é dispor de um espaço-tempo-parceria de proporções terapêuticas para aprender lidar melhor consigo mesmo...

Fazer análise é dispor de um espaço-tempo-parceria de proporções terapêuticas para aprender lidar melhor consigo mesmo, transformar pensamentos inquietantes e perturbadores que às vezes se convertem em sentimentos indigestos, cativos, recorrentes e angustiantes; ressignificar o sofrimento e, aprender um outro olhar de si pela investigação de aspectos obscuros da nossa personalidade (o inconsciente) que poderá acarretar em fortalecimento psíquico e o desenvolvimento de indivíduos mais pensantes, livres, plenamente autênticos e emocionalmente sadáveis e amadurecidos.

Como na letra da canção Viagem ao Fundo do Ego da banda nacional Egotrip dos anos 80: "Há um lugar místico em mim, algo assim bem escondido, um planeta inexplorado, um horizonte perdido...coragem para enfrentar frente a frente eu comigo, como se enfrenta um irmão no exército inimigo, coragem para encarar frente a frente eu no espelho..."

DIGA-ME COMO VOTAS E TE DIREI COMO PENSAS: O pensar na experiência de votar.

O sistema democrático (demos - povo, kratos - poder), poder que emana do povo, surgiu na Grécia Antiga do século V a.C. como um modelo de gestão político e social de cidades-estados gregas, em especial Atenas que conferia aos seus cidadãos, na época apenas homens atenienses livres e acima de 21 anos, o privilégio de escolher seus governantes.

Este padrão de sufrágio universal se transformou no sistema que garante à sociedade o direito pleno de escolher seus representantes, independente de raça, etnia, sexo ou classe social. A nova democracia no Brasil, por exemplo, é considerada uma das mais avançadas no mundo, mas que embora consolidada não se exclui de falhas, equívocos e de constante aprimoramento e transformações.

O primeiro ministro britânico Winston Churchill, que ganhou notoriedade histórica por sua liderança durante a Segunda Guerra Mundial, é autor da célebre frase: " - A democracia é o pior dos regimes políticos, mas não há nenhum sistema melhor que ela." O exercício democrático é bastante abrangente, mas tem o voto o ápice de suas aspirações. O poeta Carlos Drummond de Andrade certa vez escreveu: "uma eleição é feita para corrigir o erro da eleição anterior, mesmo que o agrave."

Especificamente aqui no Brasil, os períodos eleitorais possuem algumas particularidades. De consideráveis demonstrações de absoluto humor com os excêntricos candidatos com suas 'esquisitices' até embates que infelizmente culminam em tragédias, fato é que as eleições são capazes de mexer com as emoções e fazer despertar as aspirações mais arcaicas da natureza humana.

... é um efeito projetivo daquilo que existe de mais singular da personalidade de cada um... somos quem votamos?

De ideologias, passando pelas identificações com candidatos ou partidos, aos interesses pessoais ou coletivos, o ato de votar com todos os seus desdobramentos, abarca em si os mais diversos anseios, paixões e motivações que de alguma maneira retrata, ou como se diz psicanalitcamente, é um efeito projetivo daquilo que existe de mais singular da personalidade de cada um. Somos quem votamos?

Para o engrandecimento da democracia, depositar em algumas pessoas a confiança de conduzir os rumos de uma comunidade local, cidade, estado ou nação, implica entre outras coisas, conter distorções muito comuns numa eleição, tais como, votar irracional ou impulsivamente ou ainda mercadejar o voto, alías, prática muito comum nesta época e que lamentávelmente sepulta a dignidade e o bom caráter.

Se por um lado tem aqueles que votam movidos pelo ardor dos desejos mais irrefreados, e prova disso são as ousadas estratégias de marketing dos candidatos que tentam arrancar dos eleitores risos, lágrimas, amor e ódio, tem por outro os mais racionais munidos de infindos e incansáveis argumentos. Mas há um elemento capaz de equacionar esta lógica emoção-razão para se evitar exageros: o pensar.

Sim, para votar é preciso pensar.

Sim, para votar é preciso pensar. Aliás, este é um tema elementar na psicanálise, haja vista que possibilita ao indivíduo, entre outras coisas, o pensar a si e a forma de como expressa isso para o outro. O processo do pensamento permite refrear paixões e adaptar-se à realidade, disse Freud. Autor da Teoria do Pensar, Wilfred Bion, aponta que para além das funções cognitivas a experiência analítica objetiva desenvolver um aparelho mental capaz de pensar emoções.

O fundador da famosa marca automobilística Henry Ford, disse certa vez que "pensar é o trabalho mais difícil que existe, e talvez por isso que poucos se dediquem a ele." Leonardo da Vinci teria dito certa vez que 'quem pensa pouco, erra muito" e a filosofia budista expressa: " - somos o que pensamos; tudo o que somos surge com nossos pensamentos; e com nossos pensamentos fazemos o nosso mundo".

Mas afinal, o que é pensar? Pensar é uma palavra originária de um verbo latino pendere, que significa ficar em suspenso, examinar, pesar, ponderar. São Paulo Apóstolo considerou em sua epístola que compete ao homem o examinar-se a si mesmo. Se uma ideia pode ser considerada como uma luz que acende nos porões sombrios da mente, o pensar é seu condutor elétrico. Sem o pensar, não haveria ideias, criatividade, reflexão, discernimento e tampouco civilização.

... pensar implica em aprender, aliás, árduo exercício...

Pessoas adoecidas psiquicamente tendem inclusive a ter sua capacidade de pensar bastante comprometida, neste caso, sofrem com seus perturbadores pensamentos sem pensador. Pensar implica em aprender, aliás, árduo exercício. Pode até doer às vezes como desdobramento de como lidamos e suportamos as frustrações, mas sem isso a civilização humana já teria sido absorvida pelas barbáries.

Vamos às urnas. Mas o que e como estamos pensando a respeito disso? Quais os critérios que adotamos para escolher os nossos candidatos? O que se passa pelas nossas mentes diante deste processo? Que percurso foi percorrido em nosso mundo interno para decidirmos por determinado candidato ou candidata? Votaremos mais propensos à emoção ou pela razão? Entre ambas, cabe o pensar. Neste caso, que possamos no pleno exercício de nossa cidadania e pela defesa da nossa democracia, fazer bom e adequado uso do pensamento, votando com reflexão, lucidez e consciência.

Como diz a canção "Quem é essa gente" da banda paulista Bala na Agulha, "somos brasileiros, verdadeiros de coração, dependemos de nós para a próxima eleição, temos que nos ajudar usando a inteligência na hora de votar."

A MORTE NA MENTE DOS VIVOS: Um jeito de pensar a vida.

A homenagem em memória dos mortos, também conhecido como Dia de Finados, começou a ser praticado no ocidente principalmente por iniciativa do cristianismo romano no segundo século, e fontes históricas afirmam que foi por volta do século XIII que a data se tornou oficialmente instituída nas pautas do calendário litúrgico de Roma.

Mas a atenção aos mortos não se restringe apenas às confissões religiosas ocidentais. O tema remonta os primórdios das civilizações e povos do mundo todo, e que de alguma maneira sempre avultaram a morte através de suas culturas, crenças e ritos. Em países como o México, por exemplo, o tema da morte está profundamente enraizado nos costumes e tradições daquela nação centro-americana.

Mas afinal, o que é a morte? Para alguns talvez represente o fim de tudo, um ponto final. Para outros, um meio para se obter a eternidade ou a oportunidde de novos recomeços. Os vértices religiosos ou espiritualistas normalmente se alicerçam a partir de três principais perguntas existenciais da humanidade: de onde viemos, por que estamos aqui e para onde vamos depois desta vida, e neste ponto, o tema da morte se torna um conceito central das indagações do ser humano.

E como a morte é pensada na mente dos vivos? O escritor Ernest Becker em seu premiado livro A Negação da Morte aponta que ela é uma ideia que move a vida. A psicanalista Melanie Klein considera que o medo da morte é a causa primária da ansiedade desde o nascimento. Freud teceu desdobramentos acerca da melancolia (depressão) fazendo associações às experiências de luto e organizando modelos de teorias pulsionais nominando-as de vida e morte.

"... se da morte não se obtém muitas respostas, dela ao menos se pode evocar uma pergunta: afinal, o que é a vida? "

A herança de aspectos culturais, religiosos, filosóficos, sociais, antropológicos e até científicos sustentam a complexidade acerca da reflexão da finitude do ser. De qualquer forma, o Dia de Finados é um momento bastante apropriado para refletir a vida na perspectiva da morte. Aliás, se da morte não se obtém muitas respostas, dela ao menos se pode evocar uma pergunta: afinal, o que é a vida?

A médica Ana Cláudia Arantes, especialista em intervenções de luto e cuidados paliativos com pacientes em estado terminal em São Paulo, afirmou numa palestra que "a morte não é bonita, e que embora sua beleza seja o impar de uma tristeza, a vida sim que é bonita", como bem cantou Gonzaguinha, "eu sei que a vida devia ser bem melhor e será, mas isso não impede que eu repita, é bonita..." 

O médico patologista e professor Paulo Saldiva afirmou que, "no fundo, o verdadeiro mistério não está na morte, mas está na vida", e que embora seja capaz de emitir um atestado de morte, jamais dará um atestado de vida dado a sua complexidade. Embora a vida seja às vezes um soco no estômago como escreveu Clarice Lispector, "viver é melhor que sonhar, a vida é uma coisa boa" como compôs Belchior.

"... é morrendo que se aplaca o insuportavel da vida, ou é vivendo intensamente que se obtém um alento para o insuportável da morte?

Se muitos vivem como se já estivessem mortos, tantos outros viverão para sempre apesar de já terem morrido. Retomando Lispector, "cada dia é um dia roubado da morte, mas é esta morte que nos ajuda a suportar às vezes o insuportável", e neste caso nos indagamos: será que é morrendo que se aplaca o insuportavel da vida, ou é vivendo intensamente que se obtém um alento para o insuportável da morte?

Embora tão paradoxal possa parecer o viver e morrer que inspiram de poetas a pregadores, é na dor e na saudade pelos que já partiram que se reivindica o consolo, a serenidade e o silêncio, mas que sirva também como uma fagulha que mantenha acesa não somente a chama pela vida, mas a oportunidade para pensar e ressignificar a nossa breve peregrinação neste mundo com mais humildade e virtude.

Faço minhas as palavras do saudoso psicanalista britânico Winnicott que certa vez disse: " quando eu morrer, eu quero estar bem vivo." Até porque, como bem cantou Raul Seixas, "a morte, surda, caminha ao meu lado, e eu não sei em que esquina um dia ela vai me beijar ..." 

"Mas pra aprender a morrer, foi necessário viver, e eu vivi ..." (Baden Powell)

DO PÉ DE FEIJÃO DE JOÃOZINHO À GOIABEIRA DE DAMARIS: Uma breve reflexão sobre problemas emocionais na infância e adolescência.

Era uma vez duas crianças. Um menino que saiu para vender uma vaca na cidade a pedido de sua mãe. Enganado na feira, troca o animal por alguns caroços de feijão supostamente mágicos. Ao retornar para casa, a fúria desta mãe a fez lançar os feijões pela janela. No dia seguinte, o garoto se depara com um pé de feijão enorme que o levaria escalar até um castelo onde encontraria um saco de moedas de ouro e outros tesouros, mas para obtê-los, teria que enfrentar um gigante furioso que devorava as pessoas. A outra criança, uma menina de apenas dez anos que já sofria de depressão desde os seis e acumulando um histórico de sofrimento e dor. Com intenções suicidas, ela decide subir num pé de goiabeira nos fundos da casa de seu pai, mas foi naquele momento que ela teve uma experiência particular de natureza alucinatória-mística-religiosa que felizmente a fez mudar de ideia.

O primeiro é um famoso personagem fictício da literatura como tantos outros protagonistas de histórias infantis, a segunda é alguém da vida real, hoje uma líder religiosa que ocupa inclusive um lugar de destaque no cenário político nacional. Há uma conexão entre estas duas experiências, a da ficção e da realidade. De um lado, um menino com seu pé de feijão e símbolo da luta pela sobrevivência e dos conflitos de caráter, e de outro, a menina com sua goiabeira que poderia ter se transformado em ícone de tristeza e tragédia. São imagens simbólicas e de farta riqueza representativa para a psicanálise. O anseio pela vida e pela morte, por exemplo, rudimentares nos tratados teóricos da metapsicologia freudiana.

De pés de feijões às goiabeiras pelo país afora, indicativos acerca de crianças que travam esta luta de vida e morte são alarmantes. Quando se constata variações de natureza psíquica, considera-se os aspectos biológicos, hereditários, éticos, sociais e familiares que atingem a vida emocional, tais como, violência, abusos, abandono, privação, maus cuidados (independente da classe social), falhas na gestação e nascimento, precariedade alimentar (as vulneráveis comendo mal pela escassez e as estáveis comendo mal por excesso), equívocos no educar, principalmente na questão do limite, afeto, rotina e regras (que a propósito abordo numa de minhas palestras para pais e educadores), entre outros.

Prova disso, uma pesquisa realizada por um importante jornal indicou um aumento da quantidade de óbitos de menores entre 10 a 14 anos com base em aspectos psicológicos, e como a segunda principal causa de morte (acima da média de acidentes de trânsito) a faixa etária entre 15 e 19 anos. Outro dado preocupante, é que a quantidade de internações psiquiátricas infantis cresceu em quase 40% nos últimos anos por transtornos e abusos de substâncias psicoativas, e que entre pré-adolescentes e adolescentes, por exemplo, as tentativas de suicídio se elevou absurdamente em torno de 200%.

As necessidades de uma criança, normalmente observados pelo vértice social e de comportamento, carecem também de um olhar voltado para a qualidade psíquica, haja vista que as fases iniciais do desenvolvimento mental serão determinantes na constituição da personalidade. Neste caso, a premissa fundamental que nos encoraja a lançar um olhar atento sobre a vida emocional infanto-juvenil é que eles também podem sucumbir psiquicamente, e inegavelmente são incapazes de lidar com isto sozinhos.

Normalmente pensar em cuidado da mente remete-se à vida adulta. (10 de Outubro é o Dia Mundial de Saúde Mental). Mas fato é, que diagnósticos mais frequentes como a ansiedade e a depressão, dentres outras inúmeras inquietaçoes psíquicas, apontam que o sofrimento da alma (psiquê) não escolhe idade para se manifestar, e portanto, os menores. Fatores como inibição intelecutal, déficit de atenção e hiperatividade, transtornos de aprendizagem, isolamento, agressividade, automutilação, disfunções psicomotoras, etc, ocupam o topo na lista de queixas de famílias e escolas.

Recomendo o documentário "A ira de um anjo" (1992) disponível no YouTube. A produção relata uma história real ocorrida nos EUA na década de oitenta, sobre uma criança que perdeu sua mãe biológica no primeiro ano de vida e passou a sofrer abusos cuja situação era de extrema vulnerabilidade e abandono. Ela desenvolveu precocemente um caso raro de psicose que a deixara agressiva, violenta, apática e com desejos homicidas principalmente pelos pais adotivos, o irmão mais novo e os animais de estimação.

O cuidado integral de uma criança também deve se levar em conta aspectos de sua vida emocional. E este é um desafio para os pais, educadores e a sociedade como um todo, desde as dinâmicas familiares mais elementares até as de maiores complexidades que irão demandar soluções aternativas, testes, psicoterapias e cuidados médicos. A investigação do mundo mental de crianças e adolescentes pela psicanálise, por exemplo, contribui signficativamente para o desenvolvimento psíquico e suas transformações. A psicanalista austríaca Melanie Klein (1882-1960), precursora da análise infantil, afirma que "é essencial encarar a criança como um ser humano que começa com todos os sentimentos intensos dos seres humanos, embora, sua relação com o mundo esteja apenas principiando."

Narra-se que o Jesus com quem a menina da goiabeira se encontrou cresceu em estatura (física e mental), graça e sabedoria. Que assim seja com os nossos pequeninos. E nós como família e sociedade devemos empreender todos os esforços neste objetivo. "Criança feliz, feliz a cantar, alegra a embalar, teu sonho infantil, óh meu bom Jesus, que a todos conduz, olhai as crianças do nosso Brasil.

Feliz Dia das Crianças!

SOLIDÃO E CUIDADO DE SI EM TEMPOS DE ISOLAMENTO SOCIAL
Certamente em algum momento da sua vida e pelas mais diversas razões você já teve que lidar com o sentimento de solidão. E neste período de pandemia, com os desdobramentos das medidas sanitárias de isolamento social e de seus inevitáveis efeitos colaterais na sociedade, este tema volta a ganhar destaque.

Mas afinal, o que é solidão? Em linhas gerais, pode ser definida como um sentimento de vazio, angústia e ausência que resulta em desconexão com o meio social. As pessoas estão se sentindo cada vez mais sozinhas e alguns fatores como morar só, violência urbana, facilidades tecnológicas, associado às mudanças da comportamento na vida moderna, e por fim, esta propagação da Covid-19 que distanciou as pessoas umas das outras, estão corroborando inclusive, com o desencadeamento de patologias mentais como por exemplo, a ansiedade, a depressão e o suicídio.

Um estudo na Inglaterra apontou que apesar da solidão atingir principalmente os idosos, a surpresa recai na faixa entre 16 a 24 anos, onde 40% dos entrevistados se descreveram como solitários, mesmo com vivência familiar, escolar e redes sociais, um verdadeiro paradoxo. A pesquisa também considerou os aspectos culturais, psicológicos, ambientais, familiares e até religiosos nas intenções de isolamento.

Para Sigmund Freud, o fundador da psicanálise, o adoecimento psíquico conflituoso e de anseios egoístas e destrutivos tende a atingir desfavoravelmente a relação do Eu com o mundo externo, retirando o indivíduo da realidade e consequentemente de suas relações sociais. As máximas narcísicas: "antes só do que mal acompanhado", "eu me basto", ou ainda, "ninguém me ama, ninguém me quer", descrevem em certa medida, o tom de autossuficiência neurótico ou psicótico na estruturação deste sujeito. Ele afirma que a nossa constituição é definida por vínculos de identidade social, sem desconsiderar, contudo, traços de independência e originalidade que nos torna singulares na sociedade das massas.

Uma outra importante figura do pensamento psicanalítico, Melanie Klein, dedicou inclusive uma publicação específica sobre o assunto. Ela afirma que este sentimento íntimo de solidão reflete uma condição emocional ligadas às experiências latentes da vida mental, despertadas pela angústia de abandono, perda, medo e frustração de expectativas não correspondidas. Klein reitera que a reclusão pode ser percebida, mesmo que de forma imaginária, como um sinal de defesa contra uma realidade insuportável, angustiante e retaliadora. Também afirma que uma personalidade mais integrada, fortalecida e disponível à interação com a realidade é essencial para suportar uma solidão.

Ainda na lista de grandes mestres da psicanálise, o pediatra e psicanalista britânico Donald Winnicott em uma de suas principais publicações, considerou haver uma diferença entre sentir medo de ficar sozinho, desejar ficar sozinho, e de ser capaz de estar só, ou seja, se individuar mesmo diante de um outro, como prova de considerável amadurecimento emocional. Para ele, se no sofrimento prevalece a decisão de se isolar, é com uma vida mental estável que o indivíduo poderá lidar, inclusive de maneira criativa, com as crises de solidão ou distanciamento.

A impotência frente ao sentimento da solidão poderá se tornar um estímulo aos vícios, às práticas de hábitos nocivos, consumos desenfreados, relações tóxicas e abusivas, entre outros, na tentativa de suprir o vazio existencial próprio do se sentir só. Portanto, além de fatores externos, ressalta-se a condição psíquica como processo determinante. E o isolamento social vem se tornando um verdadeiro teste para aferir o estado emocional das pessoas e de como elas estão sendo, positiva ou negativamente, impactadas no trato com elas mesmas e na convivência familiar.

Qualquer um de nós podemos no sentir afligidos emocionalmente pelo fenômeno do distanciamento social, e isto pode percebido dentre alguns aspectos, pela intensidade de nossas angústias e conflitos, sentimentos inquietantes, pensamentos perturbadores, profundo desânimo, ações que inibem a vida pessoal, intelectual e os relacionamentos, fato é, que sinais de mal estar mental que remetem à solidão podem ser indicativos de alguma desorganização psíquica que em certos casos reivindicará ajuda especializada para garantir uma melhor qualidade de vida e saúde emocional.

Numa época de complexidades e restrições, fazer análise propicia um espaço para se discernir, aprender um outro olhar de si pela exploração do inconsciente (a parte que desconhecemos de nós mesmos), processar emoções, ressignificar sentimentos, expandir a capacidade de pensar, amadurecer psiquicamente, como desdobramentos de uma melhor aproximação de verdades encobertas da nossa personalidade através das quais nos faz sujeitos mais autênticos, podendo assumir plenamente aquilo que somos e sem equívocos, mas com liberdade, consciência e responsabilidade.

Como canta Alceu Valença: "A solidão é fera, a solidão devora, é amiga das horas, prima-irmã do tempo, e faz nossos relógios caminharem lentos causando um descompasso no meu coração..."

SEXUALIDADE: UM BREVE ENSAIO.
Marcelo Moya*

"E também aqui há trabalho suficiente para se fazer nos próximos cem anos - nos quais nossa civilização terá que aprender a conviver com as reivindicações de nossa sexualidade." (S. Freud)

O que a sexualidade teria a ver com cada um de nós? Como lidar com este tema que há séculos se arrasta cercado de contradições, encantos, desencantos e até de mistérios? O que sabemos e o que ainda podemos aprender sobre isso? Qual o lugar da sexualidade neste mundo contemporâneo de múltiplas faces? Ainda é um tabu ou porventura teria assumido dimensões perversas na civilização?

O tema da sexualidade, mesmo com os avanços acerca de seu debate na sociedade moderna e dos resultados até agora alcançados principalmente em relação à sexualidade feminina e a homossexualidade, contudo, ainda se mantém paradoxal seja por sua amplitude, por sua abrangência ou por sua complexidade.

Mas afinal, o que é sexualidade? O termo, que muitas vezes é confundido com o sexo propriamente dito ou limitado à genitalidade, é bastante amplo e com inúmeros fatores implícitos e subjetivos tais como o afeto, o contato, o gesto, os sentimentos, o desejo e o amor. Distante de uma definição absoluta, num senso comum podemos considerar a sexualidade como um conjunto de aspectos fisiológicos e simbólicos, de natureza orgânica e psíquica.

Tão cerceada pela ética ou pela moralidade, polêmica ou como objeto de investigação, a sexualidade é um assunto que sempre despertou interesse, haja vista que ela se encontra presente em todas as fases da vida, e sua influência abrange o ser humano como um todo desde o seu nascimento até a morte.

Retratadas pelas mais variadas formas de expressão dos sentimentos humanos como por exemplo as artes e os relacionamentos interpessoais, o assunto da sexualidade ocupa na contemporaneidade um lugar de destaque, e sua relevância vem de encontro às permanentes lacunas da sociedade atual.

Debruçar-se no estudo da sexualidade requer uma longa jornada, mas os primeiros passos dependem significativamente de pelo menos três fatores essenciais, a saber, compreender o lugar da sexualidade na história da civilização, passando por Freud com suas novas configurações sobre o tema e lançar um olhar atento e crítico para as grandes demandas de nosso mundo contemporâneo.

"Sem pecado, nada de sexualidade, e sem sexualidade, nada de História.". Esta afirmação do filósofo e teólogo dinamarquês, Sören Kierkegaard (1813- 1855) justifica que a história da civilização está amplamente associada às vivências e expressões sexuais da espécie humana e associadas a fatores culturais, sociais, econômicos, éticos, morais e religiosos dentro de um contexto histórico.

A sexualidade é construída historicamente desde as formas mais primitivas de vida, e foi evoluindo nos períodos posteriores da humanidade sustentando a obtenção de prazer e formação de modelos sociais como casamento e família, tendo principalmente na arte, um acervo documental de seu desenvolvimento.

O filósofo e historiador Michel Foucault (1926-1984) justifica que a sexualidade é um dispositivo histórico como uma forma de experiência dinâmica dentro de uma cultura permeada de saberes, normas e subjetividades cujo objetivo é a expressão e experimentação do prazer. No entanto, foi na modernidade que a sexualidade assume novos traços na individualidade e subjetividade.

Ele também vai afirmar que a sexualidade não é o sexo e sim é um modo de ser que se incorpora a um corpo mediante as práticas dentro de uma realidade histórica, e que é ela é também resultado do sentido e do valor de cada um, de sua conduta, da série de deveres que adota, dos prazeres que conhece ou aos quais aspira, seus sentimentos, seus sonhos. Falar da sexualidade implicaria supor que, ela assume, nas suas manifestações, formas historicamente singulares.

Mas ao falar sobre sexualidade, torna-se imprescindível um percurso por Freud, sem o qual não seria possível ampliar horizontes e superar paradigmas herdados da própria história, pois foi a partir de Freud em seus estudos sobre o funcionamento das neuroses a descoberta de que os desejos reprimidos estariam ligados a conflitos de natureza sexual dos primeiros anos de vida, e que isto seria determinante na estruturação da nossa personalidade, colocando definitivamente o tema da sexualidade no centro das principais discussões do psiquismo.

Em sua obra Os Três Ensaios da Sexualidade (1905), Freud se lança a um minucioso estudo sobre os fatores sexuais ligados à etiologia das neuroses, abordando temas como a homossexualidade sob o ponto de vista da inversão sexual, bissexualidade, perversões, libido, sadismo, masoquismo, entre outros, considerando que os sintomas neuróticos surgem a partir de pulsões sexuais, chegando finalmente ao estudo da sexualidade infantil e suas respectivas fases libidinais, o que lhe custou, inclusive, um alto preço de seu prestígio até então.

Em Complexo de Édipo e Castração, questões como o corpo, o desejo, as fantasias e o prazer se instalam no centro das discussões de Freud acerca sexualidade, sendo que é na criança edipiana, seja menino ou menina, as fantasias e angústias serão recalcadas emergindo a partir de então o sentimento de culpa e a moralidade, determinantes na constituição da identidade sexual.

No entanto, ao fim de suas investigações, Freud ao considerar que suas recentes descobertas acerca da sexualidade ainda eram insuficientes diante das demandas psíquicas do sofrimento humano, afirma: "E também aqui "há trabalho suficiente para se fazer nos próximos cem anos - nos quais nossa civilização terá que aprender a conviver com as reivindicações de nossa sexualidade.", deixando assim, uma porta aberta para investigações futuras e novas descobertas.

Embora as obras de Freud estejam sempre entremeadas de um teor profundamente sexual, foi em suas obras sociológicas na aurora de sua vida como por exemplo Totem e Tabu, que temas como o incesto e a repressão sexual volta a se tornar central e determinante para descrever o sentido e a compreensão dos sintomas e sofrimentos da civilização humana no decorrer de seu desenvolvimento.

E é a partir das concepções psicanalíticas de Freud que chegamos no contexto contemporâneo onde o conceito de sexualidade assume novos formatos, tendo na busca de prazer e descoberta das novas sensações o intuito de obter satisfação plena, deixando de se sujeitar apenas a fatores biológicos dos desejos do corpo, para se aliar às novas configurações sócio culturais da pós modernidade.

O tema da sexualidade assumiu um lugar de destaque no mundo contemporâneo, se tornado objeto de debates, questionamentos e pesquisa. O indivíduo tem sido intensa e constantemente estimulado a buscar novas experiências de obtenção de prazer. Novos canais de estímulo sexual surgem a partir dos formatos midiáticos de exploração visual que alimentam, por exemplo, o culto e exposição do corpo, cenário notoriamente provocador de sensualidades.

O contexto contemporâneo se tornou bastante apropriado para buscar novas reflexões acerca da compreensão e aceitação da sexualidade, seja de maneira individual ou coletiva, com objetivo de ajudar o sujeito a superar suas dúvidas e tabus, aprender a lidar de maneira saudável com os próprios desejos e sensações e de se evitar assim o surgimento ou aumento dos próprios conflitos de origem sexual, proporcionando o amadurecimento da sociedade em torno dos temas mais latentes com a sexualidade feminina, a homossexualidade e a bissexualidade.

Portanto, sexualidade é um tema que não se esgota e um diálogo com a história, com Freud e com o mundo moderno permite uma análise crítica e de reflexão acerca das novas formas do sujeito se relacionar consigo mesmo e com o outro a partir de seus desejos influenciados pelo narcisismo da pós modernidade.

A sexualidade é um traço marcante da construção da identidade cultural. O sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987), por exemplo, coloca o tema da sexualidade no centro da formação histórica e social do país, e afirma que a sexualidade contribuiu para a construção cultural ou seja, faz parte da própria essência do povo.

Finalizando, certa vez haviam quatro filhos cuja mãe se chamava Afrodite, que representava as diversas formas de amar. Eram companheiros constantes da deusa, sempre retratados ao seu lado. O primeiro se chamava Eros, o deus do amor inconsequente, da união, da afinidade que inspira ou produz simpatia entre os seres, para os unir em outras procriações. O segundo, Anteros, oposto ao primeiro, era o deus da desilusão, da manipulação, do amor não-correspondido da antipatia, da aversão, que desune, separa, desagrega, o terceiro se chamava Himeros, o deus do desejo sexual e o último, Pothos, o deus das paixões.

Mitos que nos apontam a força propulsora da sexualidade nas relações interpessoais e seu lugar essencial no desenvolvimento e valorização do ser humano. É por essa razão, entre tantas outras, que compreender a sexualidade é compreender a própria a vida. Como disse certa vez o romancista francês Boris Vian (1920-1959), "sexualmente, quer dizer, com a minha alma."

Sugestões bibliográficas:
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade, volumes I e II. Rio de Janeiro, Edições Graal, 1988.
FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Porto Alegre: L&PM Editores, 2012.
LANGER, Maire. Maternidade e sexo. Porto Alegre: Artes médicas, 1986.
NASIO, J.D. Édipo: o complexo do qual nenhuma criança escapa. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
STEARNS, Peter. História da Sexualidade. São Paulo: Editora Contexto, 2010.
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Publicado no site da Escola Paulista de Psicanálise.

SAÚDE EMOCIONAL E EDUCAÇÃO: 
Uma possível aproximação pela Psicanálise.

A relação da psicanálise com a educação principalmente nos processos de ensino e aprendizagem vem crescendo na medida em que novos desafios surgem para a prática docente, onda as demandas subjetivas sempre estarão manifestas em todos os níveis, do básico ao superior.

O pai da psicanálise Sigmund Freud (1856-1939) ousou ir além de seus tratados psicanalíticos aventurando-se em outros saberes com a sociologia e a antropologia por exemplo, mas nunca hesitou em declarar que sua contribuição no campo da educação era bem modesta, embora considerasse a importância do fazer pedagógico afirmando que a psicanálise deveria atuar, pelo diálogo, como fonte observadora do papel desempenhado pela educação.

Mas foi por um amigo de Freud, o pastor luterano e psicanalista Oskar Pfeister que ao lado de outro discípulo freudiano Sándor Ferénczi, que se instaurou as primeiras discussões sobre possíveis relações entre psicanálise e educação inicialmente como caráter preventivo, ressaltando por exemplo, a aproximação dos educadores com a teoria das fases libidinais da criança. A filha e também psicanalista Ana Freud considerou que a psicanálise poderia auxiliar na escolha de métodos de ensino mais recomendáveis e menos repressores, bem como na compreensão das relações emocionais entre o aluno e professor.

Sendo a arte de ensinar um processo dinâmico, pelas vias da psicanálise se evidencia que se trata de um processo que não se limita a modelos fixos, mas se movimenta no sentido de um ideal, como por exemplo o pensar e a sexualidade da criança, as relações psíquicas no campo do aprender e ensinar e a atenção aos riscos de polarizações como ensino repressor ou permissivo.

Em qualquer nível educativo, o professor se depara com problemas em sala de aula como indisciplina, desinteresse, inibição intelectual e de conflitos com os seus discentes, o que poderá desencadear neste profissional uma demanda de sentimentos e experiências emocionais negativas. Por esta razão o professor precisa estar atento a seus próprios conflitos psíquicos, pois tais conteúdos internalizados também podem interferir na sua prática de ensino e no relacionamento escolar. Isso justifica uma aproximação psicanalítica que irá ressaltar a importância do cuidado emocional deste docente por meio de uma experiência terapêutica que permita assistir este profissional com vistas ao seu amadurecimento emocional pela ressignificação de seus próprios fantasmas inconscientes, e que muitas vezes trás consigo para a profissão docente como sentimento de fracasso, impotência, desemparo, desânimo, etc.

Uma aproximação da Educação com a Psicanálise seja pelas doutrinas de Freud ou pelos pós-freudianos Melanie Klein, Winnicott e Bion, poderá contribuir com a construção de um ambiente educacional saudável, auxiliando o docente na compreensão da construção dos vínculos estabelecidos em sala e promovendo o desenvolvimento emocional para a construção do saber.

Isso é possível na condição que se oportunize aos docentes desde seu processo de formação o acesso ao conhecimento elementar das principais teorias da psicanálise, servindo como um valioso auxílio para o manejo pedagógico, na construção de relações saudáveis com colegas e alunos e como instrumento facilitador na superação dos obstáculos da própria profissão.

Os fatores inconscientes implícitos nas experiências do saber, impasses no desenvolvimento intelectual e adaptação escolar, relações subjetivas existentes entre professor e aluno são fortes indicativos de que um diálogo entre psicanálise e educação não somente seja possível, mas necessário.

A Psicanálise tem muito a oferecer à educação por meio de uma aproximação dinâmica e de uma troca interdisciplinar consistente, partindo da educação básica até o ensino superior, e se dispondo como ferramenta substancial e complementar no êxito das práticas pedagógicas. Conscientes dos efeitos benéficos desta troca de experiências poderá trazer para a educação, que as instituições de ensino possam abrir suas portas para a psicanálise e estabelecer assim, uma sólida e frutífera parceria.

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Publicado na Revista Gente do Sul. 

MAS AFINAL, O QUE QUEREM AS MULHERES?
Marcelo Moya*

O que quer uma mulher, afinal? Esta pergunta que inspirou inclusive no título de uma famosa minissérie da TV brasileira, foi atribuída a Freud por ocasião de sua analisanda Marie Bonaparte (sobrinha bisneta de Napoleão), e se tornou um dos temas mais emblemáticos da psicanálise. Intrigado diante do caso, Freud comparou sua paciente a um enigma que não conseguia decifrar: " - a grande pergunta que não foi nunca respondida e que eu não fui capaz ainda de responder, apesar de meus trinta anos de pesquisa sobre a alma feminina é, o que quer uma mulher? ", confessou o pai da psicanálise numa conferência em 1932 sobre o tema do Feminino.

Embora tenha dedicado sua carreira na pesquisa da vida mental, este tema também foi pauta nos tratados de Freud. De uma cultura conservadora, cuja mulher de sua época se limitava ao papel de mãe, do lar e dominada pelo marido, foi a partir de seus estudos sobre a histeria, passando pelas novas descobertas sobre a sexualidade e sua relação com o funcionamento mental, que Freud iria construir uma sólida relação entre a psicanálise e o feminino que perdura até hoje.

De Freud vem também a polêmica afirmação "não se nasce mulher, torna-se mulher" pois na fase do Édipo existe uma maior complexidade na menina durante os processos iniciais de seu desenvolvimento libidinal se comparado aos processos considerados mais simplificados da parte do menino. Somos todos seres de desejos, mas foi exatamente a partir da experiência de Freud com suas pacientes mulheres que pôde se aprofundar em conceitos psicanalíticos como libido, desejo e amor, obtendo valiosas descobertas para o desenvolvimento da psicanálise.

E foi justamente em seu tempo que o tema do feminino começou a ser amplamente debatido na sociedade, haja vista que toda e qualquer intenção da mulher de aspirar um outro lugar que não a sujeição aos rígidos padrões sociais e religiosos que lhe eram conferidos na época, as aprisionavam num adoecimento histérico.

Portanto, os estudos de Freud foram significativos para a compreensão da feminilidade e da reinvenção do lugar e dos papéis da mulher no mundo. Ao lado da experiência, da poesia e da ciência, Freud atribuiu à psicanálise a tarefa de desvendar o que sempre houve de latente nos porões da alma feminina: o anseio pela liberdade.

A mulher quer ser livre. Uma liberdade com pelo menos três desdobramentos. Primeiramente a liberdade para desejar, ansiar pelo prazer de viver e o viver para o prazer. Como afirmou a ativista psicanalista russa Lou Andreas-Salomé (amante de Nietzsche e amiga muito próxima de Freud): "Ouse, ouse, ouse tudo, não tenha necessidade de nada, não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém..." Outra vertente desta liberdade feminina é ser livre para as próprias escolhas, com autonomia, responsabilidade e isenção de sanções culturais. E por fim, a liberdade de amar e ser amada. É da psicanálise o conceito de que a maior angústia que aflige mentes femininas é o medo de não se sentir amada.

Como disse a psicanalista Regina Neri, a modernidade se conjuga no feminino. Apesar das inúmeras pressões sobre a mulher moderna e das armadilhas ditatoriais do corpo, consumo, beleza, casamento feliz, da maternidade e ou da carreira bem-sucedida, é a mulher que não deseja, que não escolhe e que não ama e não é amada que irá adoecer emocionalmente. Neste caso, o divã pode ser um bom começo para o encontro com liberdade. O que passar disso, deixemos para os poetas.

Referências:

ANDRE, Serge. O que quer uma mulher. Rio de Janeiro: Zahar, 1986.

ASSOUN, Paul Laurent. Freud e mulher. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.

FREUD, S.. Obras completas, conferência 1932: o feminino. Site: freudonline.com.br.

FOCAULT, Michel. A história da sexualidade I e II. São Paulo: Paz & Terra, 2011.

LANGER, Marie. Maternidade & Sexo. Porto Alegre: Artemed, 1986.

NASIO, J.D. Édipo, do qual nenhuma criança escapa. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

NERI, Regina. A psicanálise e o feminino: um horizonte da modernidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

Filme: Sex In City: o filme. EUA: Warner Bros, 2008.

Filme: Thelma & Louise. EUA: MGM, 1991.

Filme: Mulheres à beira de um ataque dos nervos. Espanha: Paris Filmes, 1988.

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Publicado na Revista Gente do Sul e Jornal de Beltrão